Conheça o Canadá

O Desserviço das desinformações

Um dos piores inimigos de quem está planejando mudar de país, imigrar ou estudar fora, na minha opinião, é a desinformação. Infelizmente estamos vivendo numa era em que muitas pessoas preferem confiar em grupos de WhatsApp ou Facebook, ler qualquer coisa e – sem verificar a fonte ou checar se é verdade – espalhar para Deus e o mundo. 

Redes sociais são ótimas fontes de dicas e também para fazer negócios, vender produtos e anunciar eventos. Muitas pessoas se conhecem por meio delas e há infinitas coisas positivas provenientes desses canais. Mas o foco do meu texto aqui é em algo que prejudica muito a comunidade brasileira, seja de quem já está vivendo no Canadá (ou em qualquer outro país) ou de quem está se preparando para tal: a falta de percepção de proporcionalidade e as fake news ou “lendas urbanas” (sim, resgataram dos anos 80).  

Como produtora de conteúdo sobre o Canadá desde 2016 e comunicadora ativa nas principais redes socias, recebo constantemente mensagens privadas com vários relatos e perguntas de brasileiros. É bem comum coisas do tipo “Adri, você sabe se é verdade que…?” ou ainda “Ouvi falar no grupo tal…qual sua opinião sobre isso?”. Confesso que a ingenuidade de algumas pessoas ao acreditar em algumas coisas sem questionar ou checar realmente me impressiona. E também me preocupa.

Tudo que se refere ao “Plano Canadá” exige pesquisa. Muita pesquisa. Quem não está empenhado em se dedicar a isso dificilmente vai chegar onde deseja ou poderá ser muito enganado. Informações estão disponíveis para todos e bastam poucos clicks no Google (em fontes confiáveis e/ou oficiais) para descobrir várias coisas úteis. Em primeiro lugar, é preciso separar o joio do trigo. Uma coisa é matéria jornalística que apresenta fatos ou fontes com estatísticas do governo canadense ou da mídia canadense e outra – bem diferente –  são opiniões ou comentários de influenciadores ou amigos. Eu vou me concentrar na segunda. 

FAKE NEWS E EXAGERO, MUITO EXAGERO

Há muito tempo optei por não participar de grupos (Facebook e WhatsApp), mas frequentemente recebo prints de seguidores, “Olha Adri, que absurdo estão espalhando”. É cada coisa! Algumas parecem piadas.

Vou citar alguns exemplos do que eu considero um desserviço, pois criam pânico desnecessário e um ambiente de negatividade e exagero que alguns incautos podem entrar.

Há alguns dias estava rolando nos grupos de brasileiros no Facebook, um post dizendo que Vancouver estaria ficando “muito perigosa” e citava um incidente que acontecera na cidade, onde uma moça teria morrido em seu apartamento, no centro da cidade. Apesar de ter lido alguma coisa sobre a notícia e já estar familiarizada um pouco com o tema, o que eu fiz? Google e Twitter para checar fontes oficiais: jornais locais de grande circulação e contas da polícia local também. Não basta alguém me dizer “eu vi no face”.

Não demorou muito para descobrir que era um caso isolado, que havia acontecido num prédio onde moravam pessoas vulneráveis e que, segundo a polícia de Vancouver, não representava ameaça à sociedade. Em outro dia, estava rolando também um post bem no estilo “lenda urbana”, onde dizia que as mulheres de uma cidade vizinha à Vancouver sofriam um golpe onde deixavam um bilhete nos carros. Algo tão sensacionalista que só de ler as primeiras palavras eu já lembrei daqueles emails que enviavam antigamente relatando sequestros para retiradas de órgãos em que pessoas “amanheciam numa banheira de gelo” (quem tem mais de trinta anos vai lembrar). Detalhe: sem nenhum link para nenhuma fonte confiável, como é comum entre as fake news e fofocas de internet. 

Mas o que mais me chamou a atenção não foi a notícia em si, afinal, crimes e homicídios acontecem em qualquer lugar do mundo. O que me deixou estarrecida foi a pessoa que me enviou os prints ter acreditado nos comentários do Facebook (um pior que o outro) e ter ficado apavorada, fazendo perguntas como “Mas Adri, então o Canadá está ficando igual ao Brasil? Então as pessoas estão correndo riscos? Porque eu não estou saindo do Brasil para ir para um lugar inseguro…” e por aí vai. “Igual ao Brasil”, isso ecoou na minha cabeça por alguns instantes. Muita calma nessa hora, gente. 

Ser digital influencer (detesto esse nome, mas é o que tem pra hoje) muitas vezes também nos dá a função de uma espécie de “educador temporário”, dependendo do tema. Nessas horas, por mais que meu tempo seja precioso, eu me sinto na obrigação de ajudar a conscientizar. Então toda vez que recebo mensagens como essa tento explicar algumas coisas e trazer um pouco de luz ao tema.

Há os que espalham fake news e boatos exagerados (alguns por puro por esporte e outros por ignorância mesmo) e há os que consomem. Minhas sugestões são para ambos. 

Todo e qualquer post contando um fato importante que não contenha a fonte para que você possa checar, desconfie, vá atrás da informação. É a primeira coisa para evitar ser pego pelas notícias falsas ou fofocas. Além do Google, há uma coisa em nossa mente que ajuda muito: o filtro. Mesmo se o post for um relato, ainda sim há a “opinião” de quem está postando. E aquilo sempre vai ser um recorte da realidade.

Notem que notícias falsas ou fofocas quase sempre têm um tom sensacionalista, que pretende chocar, sem bases ou fundamentos. Caso tenha um link, verifique se o jornal/revista/site é de grande circulação, se é confiável e não apenas um veículo sem importância ou de natureza duvidosa. Grandes jornais e redes de TV são fiscalizados e regulados, diferente das tias do “zap-zap”, que não serão processadas por espalhar mentiras (infelizmente). Importante: chequem procurando pela imprensa local, em inglês. 

Outra coisa super importante é saber discernir o que é jornalismo que apresenta fatos do jornalismo de opinião (comentaristas, críticos de cinema, comentaristas políticos etc). Vejo frequentemente as pessoas confundindo as duas coisas. Ou, por exemplo, o erro de tomar o trabalho de influencers como verdade absoluta. Influencers  têm conteúdos mais opinativos. Sempre vão trazer uma versão da realidade de acordo com a visão de cada um. 

exagero é algo muito constante nas comunidades e os alarmistas de plantão não poupam palavras dramáticas para os textões. Vejo muito exagero ao criticar certas coisas da vida no exterior, principalmente vindo daqueles cujas experiências não deram certo ou há muita frustração envolvida. Alguns retornam ao Brasil e continuam nos grupos somente para corroborar com esse tipo de coisa, para tornar ainda mais tóxicas as relações que já estão altamente tóxicas nas redes sociais.

PÂNICO DESNECESSÁRIO

Antes de acreditar no post do seu amigo que diz que Vancouver, Toronto ou qualquer outra cidade do Canadá está “perigosa” e de botar fogo no parquinho errado, uma coisa que pode ajudar nessas horas são eles, sim, os números. 

Dentro desse assunto da violência urbana, quero chamar a atenção para as estatísticas, que não são nada agradáveis. No Brasil, em 2018, o País atingiu o recorde de registros de estupros. Foram 66 mil vítimas, o equivalente a 180 estupros por dia. Isso é um número absurdamente assustador. Em 2018, 1.206 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, uma alta de 4% em relação ao ano anterior.

No Canadá, a classificação de crimes sexuais é diferente de países não desenvolvidos. Agressão sexual (sex assault) é definida como uma agressão de natureza sexual que viola a integridade sexual da vítima. A Suprema Corte do Canadá diz que “o ato de agressão sexual não depende apenas do contato com qualquer parte específica da anatomia humana, mas do ato de natureza sexual que viola a integridade“. Então, toda e qualquer denúncia – grave ou não – entra na estatística. Até uma abordagem não física pode ser considerada sex assault.

Eu já presenciei mulheres acionando  o “silent alarm” por terem sido assediadas sem terem tido nenhum tipo de contato físico. O silent alarm (foto acima) é um recurso de segurança composto por uma linha amarela em alto relevo que tem na parede do transporte público de Vancouver. Silenciosa e uma vez pressionada, policiais entram na próxima parada para averiguar o que ocorreu. Isso existe há mais de vinte anos na cidade.

No Canadá, em 2017, houve 24.672 casos de sexual assault níveis 1, 2 e 3 sendo que 98% deles foram classificados como nível 1. O nível 1 envolve lesões físicas leves ou nenhuma lesão na vítima. Ou seja, não dá nem para comparar com o que acontece no Brasil. Em Vancouver, em 2019, houve 10 casos de homicídios, 5 casos a menos que em 2018, segundo a Polícia de Vancouver, em matéria que vocês podem conferir aqui. Em Curitiba, minha cidade natal, foram 243 casos registrados em 2019

Além das estatísticas, há a vida cotidiana aqui que nos permite fazer, sem medo, coisas que no Brasil seriam impensáveis, principalmente para as mulheres. Como andar à noite sozinha, usar qualquer tipo de roupa sem ser importunada ou assediada na rua, andar de transporte público a qualquer hora, contar com a polícia e com um sistema que funciona e que não culpa a vítima. Poderia citar mil exemplos. Não há o medo constante e o pavor que existe no Brasil. Mulher precisa se cuidar em qualquer lugar do mundo, mas nem de longe os dois países são comparáveis.

Outra coisa estranha é achar que no primeiro mundo não há crimes ou problemas sociais (gostaria de saber quem disse isso à algumas pessoas ou que tipo de escola frequentaram). Mas ainda assim costumo dizer que o Canadá, mesmo com seus problemas, é um parquinho de diversões perto do Brasil. Um playground. É nisso que as pessoas precisam se ligar, na proporção. 

Segundo o ranking da taxa de criminalidade por país por população de 2020, do World Population Review, o Brasil está em sétimo lugar, infelizmente. Segundo o site, “the countries with the ten highest crime rates in the world are:

  1. Venezuela (84.86)
  2. Papua New Guinea (80.26)
  3. South Africa (77.02)
  4. Honduras (75.84)
  5. Afghanistan (73.26)
  6. Trinidad and Tobago (73.15)
  7. Brazil (69.48)
  8. El Salvador (68.63)
  9. Namibia (68.14)
  10. Syria (66.91)”

O Canadá é considerado o sexto país mais seguro do mundo. Sim, isso é o que vemos e também sentimos aqui no nosso dia-a-dia. Além dos números, há a sensação de tranquilidade, pela vivência que temos aqui. Em Vancouver, por exemplo, assaltos à mão armada são raros e furtos acontecem como em qualquer lugar do planeta (principalmente em locais turísticos), mas é possível evitá-los e a violência não faz parte do nosso cotidiano e nem das nossas conversas. Esses dias ri demais com a notícia de um cara que assaltou um banco com um guarda-chuvas. Para os canadenses, é um grande susto. 

Então há furtos, crimes, assaltos? Óbvio. Há problemas com drogas? Muitos. Mostre-me um lugar deste planeta que seja perfeito e eu vou pra lá correndo (ou melhor, de avião). 

As casas aqui não têm muros, portões, grades, vidros, cercas elétricas. Muitas delas ficam até abertas. Até hoje isso é algo que me espanta. Os caixas eletrônicos dos bancos nas ruas não têm nenhuma proteção, para entrar numa agência bancária não precisa passar por nenhum detector de metal, é só entrar. Prédios comerciais suntuosos? Só entrar. É rara a figura do porteiro e a maioria dos prédios não tem uma recepção. Os policiais são extremamente educados e tratam a todos com respeito. Pessoas andam com seus celulares, câmeras, laptops, notebooks, em todos os lugares. Eu acho que nem faria vídeos para o YouTube se eu não pudesse andar com minha câmera pra cima e pra baixo. Aliás, fiz até um vídeo sobre a segurança em Vancouver com cenas cotidianas, que vocês podem conferir aqui. 

No Canadá, você não vai começar seu café da manhã folheando um jornal (no seu smartphone) cujas notícias variam de “fulana foi assasinada com x facadas” a “pai espanca criança”. Você não vai conversar com seu colega de trabalho sobre a violência e ele também não trará esse tipo de assunto para você. A violência não fará mais parte do seu “H.D. mental”, que terá um espaço livre para dar lugar a outras coisas mais importantes da sua vida, que em breve você descobrirá quais são.

Aqui seu café da manhã terá, na maioria dos dias, notícias sobre a neve e sobre diversos outros assuntos, você comerá suas panquecas com maple syrup bem tranquilamente, e uma vez ou outra, verá a notícia de um crime violento ou algo do tipo, que fará com que a população e as autoridades fiquem comovidas e escandalizadas. Porque crime na guerra é comum, mas no parque de diversões nem tanto. 

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